Rafael de Jesus: A vida sem indústria é culpa – Parte 1 de 2

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Hoje, 25 de maio comemora-se o dia dos trabalhadores rurais e da indústria. Uma feliz e adequada coincidência. A relação entre trabalhadores rurais e industrialização sempre foi muito forte em nossa região.

A primeira burguesia industrial do Paraná foi a dona dos engenhos de erva-mate, formada nos tempos da província, sendo que a matéria prima era produzida em nossos campos, de Araucária e região. Portanto, o trabalho rural de homens, mulheres e crianças; pretos, indígenas, brancos, caboclos e colonos, tornou possível a construção das primeiras grandes fortunas industriais da capital.

Ainda podemos lembrar a história das indústrias de massa de tomates e pimentões em nossa cidade, onde a relação entre a produção dos trabalhadores rurais e a manufatura nos estabelecimentos fabris era direta, evidente a todos. Que o diga a história de Archelau de Almeida Torres, possivelmente o primeiro industrial de porte do atual município de Araucária. Não por acaso, atualmente relembrado em nomes de avenida, escola e até mesmo do arquivo histórico.

Também não podemos esquecer a história das indústrias de linho aqui em Araucária, quando da vinda do senhor Charvet e família, que no início da década de 1940 trouxe a Companhia de Beneficiamento de Linho São Manoel e em 1947 trouxe a própria Companhia São Patrício para Araucária. Outras trinta companhias vieram no seu rastro, criando em nossa cidade novas oportunidades de emprego. Podemos aprender muito sobre a relação entre os trabalhadores rurais e a atividade industrial a partir da leitura do livro Agricultura e Indústria: memória do trabalho em Araucária. Como podemos conferir:

“Para obtenção da matéria-prima, a indústria incentivou o cultivo de linho na região através da distribuição de sementes aos colonos. Um contrato era assinado, no qual o produtor se comprometia a devolver a quantidade de sementes recebida e a vender a produção para a própria companhia que, em troca, dava a garantia de um preço mínimo (ARAUCÁRIA).”

No caso das indústrias de massa de tomates e pimentões foram as multinacionais as responsáveis pelo seu lento declínio. Já com relação à indústria de linho foram a retomada da atividade industrial na Europa, no período pós-guerra, e a entrada dos tecidos sintéticos os responsáveis pelo seu declínio.

Acontece que, desde então, essa relação entre os mundos dos trabalhadores rurais e das indústrias, parece ter se tornado menos evidente na cabeça de algumas pessoas. Afinal, com a instalação da Refinaria Presidente Getúlio Vargas, na década de 1970, entramos numa nova era, nos distanciamos das atividades do campo. Ledo engano.

É preciso lembrar que a indústria chegou ao campo que hoje depende de máquinas, combustíveis, agrotóxicos e fertilizantes. Certamente nenhuma outra indústria em Araucária representou melhor essa relação do que a Fafen-PR (Fábrica de Fertilizantes Nitrogenados do Paraná), hoje hibernada enquanto o Brasil permanece vulnerável frente ao mercado externo de fertilizantes, colocando em risco as safras dos nossos trabalhadores rurais. Poucas vezes o fato do dia 25 de maio ser dedicado tanto aos trabalhadores rurais como à indústria fez tanto sentido.

Aqui se faz necessário um importante esclarecimento. Possivelmente o Brasil passa pelo maior processo de desindustrialização de toda história da humanidade. E isto é apavorante. Em 1985 a indústria de transformação no Brasil representava 36% do nosso PIB, em 2021 apenas 11% do nosso PIB vinha da indústria. Certamente a hibernação da Fafen-PR contribuiu com esses números. Nossa culpa foi não termos dado a devida importância para esse triste marco da história de Araucária e até mesmo do Brasil.

A nossa culpa também está em não termos dado ouvidos para tudo aquilo que os trabalhadores ligados ao Sindipetro, Sindiquímica, Sindimont e ao MST, nos alertavam. Desemprego, vulnerabilidade frente às oscilações do mercado externo – o que se confirmou com a guerra na Ucrânia – e risco aos setores agrícola e de transportes.

A vantagem da culpa, quando diante do reconhecimento dos fatos e da humildade, é que a mesma pode servir como um bom incentivo às ações mais assertivas. É o que esperamos por parte de autoridades dos executivos e dos legislativos nos níveis municipal, estadual e federal. Não se comprometer com a luta pela modernização e reativação da Fafen-PR será estar do lado errado da história.

Edição n. 1364

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