Ao longo dos últimos anos, Araucária foi o destino de centenas de venezuelanos que deixaram seu país natal em busca de paz e novas oportunidades.

A saída da Venezuela aconteceu principalmente por conta da crise econômica que assolou o país e o regime ditatorial do governo de Nicolás Maduro.

Justamente por isso, a informação de que o ditador foi capturado pelo governo americano na madrugada deste sábado, 3 de janeiro, tem causado um misto sentimentos nos venezuelanos residentes em Araucária.

O Popular conversou com vários deles para saber como receberam a notícia da queda de Maduro. Alguns até emitiram suas opiniões, mas pediram para não ter o nome divulgado. De maneira geral, apesar das incertezas, o sentimento é de que o futuro da Venezuela tende a ser melhor do que o presente.

Vários disseram que têm mantido contato constante com famílias e amigos que permanecem na Venezuela, sendo que os relatos são de ruas vazias, bastante gente nos supermercados, mas de uma calmaria constante.

Um dos que concordou em falar foi Carlo Magno. Ele já está no Brasil desde 2019. “Cheguei a Curitiba no dia 18 de fevereiro com minha esposa Gina, grávida na época, após termos vivido quase um ano na Argentina. Chegamos sem conhecer o idioma, sem entender a cultura e, principalmente, sem certezas. Como milhões de venezuelanos, não emigramos por aventura ou ambição: emigramos por necessidade”, relata.

Na Venezuela, Carlo chegou a ser vice-presidente de Negócios em uma grande empresa de construção que prestava serviços a PDVSA, estatal petrolífera do país. “Nossa saída da Venezuela foi praticamente obrigatória. O colapso político, econômico e social transformou a vida cotidiana em uma luta constante pela sobrevivência. Conseguir alimentos básicos era um desafio diário, os preços mudavam semana após semana e a perseguição política tornou-se uma ameaça real, sem distinção de idade, gênero ou posição social. O país deixou de oferecer futuro e passou a cobrar o presente”, relembra.

Ele conta que em 2018, a Venezuela acumulava mais de três décadas de atraso industrial, com o setor automotivo paralisado havia anos. Além disso, a produção de petróleo atingia os níveis mais baixos dos últimos anos. “O ambiente político era sufocante. Expressar opinião tornou-se perigoso. A censura foi imposta de forma violenta, e o medo passou a ser uma política de Estado. Em um país onde mais de 90% da arrecadação dependia do petróleo, o governo recorreu a China e à Rússia em busca de financiamento. O resultado foi previsível: corrupção, projetos inconclusos e maior dependência externa. O petróleo continuou saindo, mas o país continuou afundando”, recorda.

Desde a queda de Maduro, Carlo tem conversado com amigos e familiares que ficaram na Venezuela. Segundo ele, o cenário é de incerteza. “Não está claro quem assumirá o poder nem como se dará a organização do controle político e militar. Enquanto isso, a população reage com medo: compras impulsivas, estoque de alimentos e água e a sensação coletiva de estará beira do desconhecido”, comenta.

Carlo comenta que tem ouvido falar muito sobre os interesses dos Estados Unidos no petróleo venezuelano, mas que na prática essa exploração dos recursos naturais do país já acontece atualmente por outras nações, como Rússia, China e Irã. “Eles vendem petróleo no mercado paralelo, extraindo ouro e diamantes do sul da Venezuela e financiando um sistema que beneficia apenas uma elite corrupta”, pontua.

Sobre o futuro, Carlo diz sonhar com o dia que poderá voltar a uma Venezuela livre, democrática e em paz. “O Brasil nos recebeu de braços abertos. Aqui construímos nossa família, temos dois filhos brasileiros e um amor profundo por esta terra que nos permitiu recomeçar. Ainda assim, como muitos migrantes, carregamos a Venezuela na memória e na esperança. Queremos que nossos filhos conheçam o país de onde viemos”, afirma.