Durante décadas, quando um terreiro era atacado, depredado ou incendiado, diziam que era caso de polícia. Mas quase nunca trataram como caso de cultura. Quantas casas foram marcadas pela intolerância? Quantos atabaques silenciaram por medo? Quantos fundamentos precisaram se esconder para sobreviver em silêncio?

Hoje existe uma lei federal que reconhece oficialmente aquilo que sempre soubemos na prática: terreiro é cultura viva. A Lei nº 13.018/2014, que instituiu a Política Nacional de Cultura Viva, afirma que tradição popular, saber ancestral, música ritual, oralidade, formação comunitária e memória espiritual são produção cultural legítima. Não é interpretação. Está na lei.

E o município de Araucária aderiu a essa política. O recurso existe. O dinheiro está previsto. Mas está sendo devolvido por falta de participação.

Enquanto muitos afirmam que o poder público não apoia, a verba retorna porque ninguém se inscreve. Isso precisa ser dito com coragem. Direito que não é acessado vira estatística perdida.

Terreiros depredados e atacados, jamais. Chegou o momento de levantarmos terreiros maiores, renovarmos o couro dos atabaques, fortalecermos nossas estruturas e reorganizarmos os espaços de assentamento. É tempo de devolver cores vivas ao que tantas vezes foi marcado pelo vermelho do sangue ancestral e pelo cinza do carvão da intolerância religiosa. É tempo de transformar resistência em estrutura.

Se o seu terreiro ensina cantiga, preserva fundamento, transmite saber, organiza roda, celebra festa tradicional, alimenta comunidade e guarda memória, ele produz cultura. E quem produz cultura tem direito a reconhecimento e financiamento.

A Cultura Viva não foi criada para grandes palcos apenas. Foi criada para a base comunitária. Foi criada para quem mantém a tradição viva no cotidiano. Foi criada para que o Brasil reconheça sua própria raiz.

Mas é preciso agir. Procurar a Secretaria de Cultura. Perguntar pelos editais vinculados à Cultura Viva.

Buscar o cadastro como Ponto de Cultura. Organizar documentação. Se informar. Se mobilizar.

Não se trata apenas de dinheiro. Trata-se de afirmação histórica. Trata-se de dizer que o terreiro não é clandestino, não é marginal, não é invisível. É parte da cultura brasileira reconhecida por lei.

O tambor que chama orixá também pode chamar consciência. Axé também é cidadania. Tradição também é política pública. Se a cultura é viva, ela precisa ocupar espaço. Inclusive no orçamento.
Garanta o dinheiro público que é direito do seu terreiro. Acorda, macumbeiro.

Edição n.º 1504.