Em 1876, quando os primeiros imigrantes poloneses começaram a chegar à região de Araucária, a Polônia não existia como país. Seu nome havia sido apagado dos mapas da Europa. O território polonês estava dividido e ocupado por três potências estrangeiras: a Prússia (então parte do que viria a ser a Alemanha), o Império Russo e o Império Austro-Húngaro. O povo polonês vivia subjugado, sem soberania, sem autonomia política e sem direito de decidir seu próprio destino.

Essa dominação não era apenas territorial. Ela atingia o cotidiano, a dignidade e a identidade. A língua polonesa era proibida ou desencorajada nas escolas, a cultura era reprimida, os costumes eram vistos como indesejáveis e qualquer manifestação de sentimento nacional era tratada como ameaça. Ser polonês, naquele contexto, era resistir silenciosamente.

A realidade social era igualmente dura. A maior parte da população vivia no campo, em pequenas propriedades ou como trabalhadores submetidos a impostos abusivos, falta de terras, escassez de alimentos e poucas perspectivas de futuro. A miséria não era exceção; era regra. Gerações cresciam sem esperança de mudança, presas a um sistema que negava não apenas oportunidades, mas também identidade.

É nesse cenário que surgem os chamados aliciadores. Eram homens enviados ou autorizados pelo Governo Brasileiro, num período em que o Brasil buscava intensamente mão de obra para ocupar territórios, desenvolver a agricultura e substituir o trabalho escravizado recém-abolido. Esses agentes percorriam vilarejos, conversavam com famílias, frequentavam feiras e igrejas, apresentando uma promessa que soava quase inacreditável.

Falavam de um país distante, fértil e generoso. De terras próprias, trabalho recompensado, liberdade religiosa e a possibilidade de viver sem perseguição. Para um povo cansado de ser estrangeiro em sua própria terra, a ideia de recomeçar do outro lado do oceano parecia menos um risco e mais uma chance — talvez a única.

É importante compreender: a decisão de emigrar não foi simples nem romântica. Significava abandonar tudo. A terra natal, os parentes, os túmulos dos antepassados, a língua falada nas ruas e as paisagens conhecidas desde a infância. Muitos sabiam que a partida poderia ser definitiva. Ainda assim, partiram.

Não movidos por ambição, mas por sobrevivência. Não em busca de riqueza, mas de dignidade. A imigração polonesa foi, antes de tudo, um ato de coragem e esperança. Um gesto profundo de fé no futuro, quando o presente já não oferecia alternativas.

Nos próximos textos, conheceremos melhor essa travessia: o caminho até o Brasil, a chegada, o impacto do novo mundo e os primeiros passos em uma terra desconhecida. Porque antes de construírem comunidades, os imigrantes poloneses precisaram, primeiro, reconstruir a si mesmos.

Edição n.º 1501.