Desde o vídeo publicado pelo influenciador Felca, que fez um alerta sobre a adultização de crianças e adolescentes, o assunto tem ganhado certa notoriedade no país, resultando em várias mudanças em sites e aplicativos pela internet. Visando reforçar a proteção de crianças, o jogo online Roblox implantou algumas mudanças no acesso dos jogadores ao chat. Agora, além de precisarem comprovar a idade através de uma verificação facial, as crianças possuem restrição do uso do chat com base em sua idade. Menores de 9 anos precisam de autorização dos responsáveis, e menores de idade só poderão conversar com pessoas que possuem idades próximas.

A empresa responsável pelo jogo implantou essa decisão globalmente, já que essa questão não foi levantada apenas no Brasil, mas também nos Estados Unidos. De acordo com a imprensa nacional, em agosto o jogo recebeu um processo no estado de Louisiana, com acusação de permitir que predadores sexuais “prosperem, se unam, cacem e vitimizem menores”.

O caso mais recente envolveu o desaparecimento de um menino de 15 anos, em Nova York. Segundo a família do jovem, ele desapareceu após marcar um encontro com uma pessoa que conheceu no Roblox. A plataforma afirma que não encontrou evidências de qualquer atitude suspeita ou evidências de troca de contatos.

Em razão disso, o Conselho Tutelar de Araucária faz um alerta acerca do perigo de crianças terem acesso a jogos online sem supervisão. “As crianças e adolescentes não conseguem vislumbrar o perigo que pode estar do outro lado da tela, pois nem sempre quem está jogando e interagindo com as crianças também é criança. Nesse ambiente pode ter adultos disfarçados, para tentar algum tipo de contato fora do jogo com as crianças. Além disso, a conversa entre os jogadores é por vezes de cunho violento, e com vocabulário de baixo calão, que as crianças reproduzem em outros ambientes. Ainda tem a dependência que esse jogo provoca nas crianças. Limitar o uso é fundamental para garantir a saúde psicológica dos pequenos”, explica a conselheira tutelar Patrícia Soares.

Ela declara que o Conselho Tutelar de Araucária tem registrado um aumento nos casos de crianças com a saúde psicológica comprometida em razão do uso excessivo de telas, causando infrequência escolar e até mesmo indisciplina. Os casos envolvem relatos das famílias informando que os filhos ficam muito tempo jogando e que não conseguem mais socializar, assim como também não se alimentam, perdem a hora de ir para a escola e ficam agressivos. Ao tentarem tirar o celular, as crianças entram em crises e, em muitos casos, os pais devolvem o aparelho ao filho, acreditando ser a melhor solução.

Patrícia enfatiza que o papel dos pais é fiscalizar e equilibrar o uso de jogos ou telas em geral, saber qual é o conteúdo que está sendo acessado e com quem a criança está se comunicando. Além disso, também é importante fiscalizar o chat, a galeria de fotos, redes sociais (se tiver) e tudo o que pode expor as crianças ao risco.

“Sempre afirmo que se o pai, mãe ou responsável legal não tiver a senha do celular do filho, a criança não pode ter o celular, pois o acesso à internet sem supervisão a torna ainda mais vulnerável, sendo isca fácil para os predadores. A fiscalização, limite e o equilíbrio da família, são fundamentais para garantir a proteção nas redes”, ressalta.

A conselheira menciona que os pais podem ser responsabilizados se o filho sofrer algum tipo de violência ou abuso virtual, já que é dever da família garantir a proteção integral da criança ou adolescente, incluindo o uso de celular, jogos e redes sociais. “Se está permitindo o acesso ou a exposição, é importante saber que pode ser responsabilizado por qualquer prejuízo que isso possa trazer para os filhos. O Artigo 4º do Eca é enfático no que se refere à responsabilidade da família”, afirma.

DENÚNCIA E ORIENTAÇÃO

Nessas situações, a conselheira diz que o papel do Conselho Tutelar é orientar e encaminhar a família ao serviço que for pertinente ao caso, podendo ser a delegacia, avaliação pela UBS ou inserção em programas ofertados pelo CRAS.

“Para denunciar situações de risco, os responsáveis podem acessar as páginas direto nas plataformas, nas delegacias especializadas, ou no disque 100, que é o canal oficial de denúncias. O Conselho também está disponível para orientação e encaminhamentos necessários”, informa.

Patrícia também cita algumas orientações para crianças e adolescentes, como procurar evitar se comunicar para além do jogo; não dar informações sobre a família, escola, rotina ou até mesmo números privados para manter contato; estar sempre junto da família e comunicar os responsáveis caso sinta que tem algo de errado. Aos pais, ela menciona a importância do diálogo e orientação aos filhos, além das seguintes dicas: ativar ferramentas como o Google Family Link ou as travas nativas de jogos como Roblox para filtrar conteúdos violentos e restringir chats com desconhecidos; ensinar a criança a usar o botão de “Denunciar” dentro do jogo.

Com o ECA Digital, as plataformas têm prazos mais rígidos para remover conteúdos impróprios. Em caso de incidentes graves, utilize canais como a SaferNet Brasil para denúncias anônimas e as delegacias especializadas. Gosto de reforçar que a melhor forma de garantir a segurança é o diálogo e a confiança, que inicia dentro de casa. A família é fundamental para garantir que a criança esteja segura”, finaliza.

Edição n.º 1500. Victória Malinowski.