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Araucária, muitos de seus políticos, entidades e moradores devem sofrer de bipolaridade. Mas não aquela com variações acentuadas de humor da qual não se tem controle sem tratamento adequado. Essa bipolaridade araucariense é mais mundana, capaz de ser acionada de acordo com suas conveniências.
Nos últimos dias, por exemplo, quase que não acreditei quando vi um sindicato que representa certo segmento do funcionalismo municipal tentando mobilizar a comunidade de um bairro da cidade contra a retirada de médicos terceirizados do local. Exatamente: um sindicato de servidores públicos brigando contra a retirada de terceirizados. Onde, minha gente, vocês seriam capazes de ver algo tão dantesco como isso que não na gloriosa terra que foste o chão dos briosos tinguis?
A peculiaridade do ato sindical talvez só se compare com a justificativa dada pela Secretaria Municipal de Saúde (SMSA) para a retirada dos médicos terceirizados daquela unidade: uma determinação do Ministério Público. Ora, desde quando o MP tem o poder de mandar o Município fazer algo? O máximo que o órgão pode fazer é recomendar alguma medida e, a partir do momento em que a Prefeitura decide cumprir tal recomendação, o faz porque admite que aquilo se tratava de uma irregularidade. Simples assim. Essa mania que o gestor público local tem de tentar terceirizar a responsabilidade por aquilo que pode causar determinado grau de desgaste é outro gatilho que aciona essa bipolaridade de conveniência. Deu certo, fui eu quem fiz. Deu errado, alguém mandou.
Ainda na seara de tentar terceirizar a responsabilidade por aquilo que eventualmente não é bem visto aos olhos da população, mais recentemente ouvi algumas pessoas acusando um promotor de justiça da cidade de ter impedido a entrada da imagem de uma santa católica numa capela de determinado bairro de Araucária. Sim, numa analogia tosca, o promotor foi promovido a Padre Olavo do filme O Pagador de Promessas impedindo que Zé do Burro entre com sua cruz na sacristia. De novo, o que temos aqui é o ente público terceirizando sua responsabilidade em dizer à comunidade que eventual impedimento se dá porque a tal paróquia está sendo construída num terreno pertencente ao Município e que, por esta razão, não pode ser utilizada por uma igreja. Até porque, como todos sabemos, o Estado é laico.
E ainda utilizando os casos acima como exemplo dessa bipolaridade que parecemos sofrer, é interessante como se comportam alguns ditos cidadãos araucarienses, que parecem ter dois pesos e duas medidas para tudo.
No caso da paróquia, mesmo sendo cristalino que o terreno não pertence à igreja, muitos dizem com convicção que a igreja tem o direito de permanecer ali, mesmo que isso afronte a lei. Os argumentos dos fieis são baratos, como o de que os órgãos de fiscalização deveriam se preocupar com outras coisas, ou que a área já era ocupada pela igreja há décadas e assim por diante. Na prática, defendem que para este caso específico a lei seja ignorada, deixada de lado, aplicada num outro lugar.
O mesmo vale para o caso dos médicos terceirizados, que não de hoje estão sendo utilizados de maneira indevida em unidades básicas de saúde, já que o correto seria que esses serviços de horas-médicas ficassem restritos aos pronto-atendimentos de urgência e emergência da cidade. Convenhamos, muito embora a ilegalidade não tenha sido cometida pelo usuário do posto, tão logo ele ficasse sabendo dela, deveria é defender a sua imediata correção. Afinal, enquanto pessoas honestas que somos, jamais deveríamos coadunar com qualquer tipo de ilegalidade. No entanto, como a aplicação da lei vai lhes causar transtorno, defendem – mesmo que veladamente – que ela seja ignorada para este caso específico.
O triste é que, com essa bipolaridade de conveniências que impera por aqui, nunca nos propomos a encarar os problemas de frente. E sem encará-los, infelizmente, não há como resolvê-los!
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