“Pai, se possível for… passa de mim este cálice…”, disse Jesus pouco antes de cumprir seu trágico destino. Por um instante, até ele reconheceu que existem bebidas fortes e amargas que a vida nos obriga a tomar e que, se fosse possível, seriam melhores cuspidas do que engolidas.

São realidades. Verdades nuas e cruas que chegam como mensageiras da nossa própria crucificação. Momentos em que a presença divina parece ausente e resta apenas a única presença possível: você com você. Sozinha. Acordando cedo, pegando um ônibus cheio, sentindo-se invisível no meio da multidão. Um deserto lotado de gente.

No caminho, as perguntas ecoam como martelos na mente: “Será que desliguei o fogão antes de sair de casa?”, “Será que não vou estourar o limite do cartão?”, “Será que ainda vou ter alguém para amar?”. São vácuos demais pedindo para ser preenchidos.

E nem sempre há um grito do outro lado dizendo que vai ficar tudo bem, que o botijão está desligado, que a vida vai se ajeitar. Não há. O que existe é um silêncio frio. Um silêncio escuro. Um silêncio que nos faz sentir como Jesus naquela noite: “Pai, afasta de mim esta humanidade pesada demais…”.
A resposta é a ausência. Não tem jeito. Não há fuga, nem mesmo na derradeira hora. Porque até no último segundo de fôlego ainda surgem pensamentos: quem estará lá? O que vem depois da cortina? Será que sentirei medo?

É um oco de certezas tão profundo que às vezes parece que Deus fez uma pegadinha de mau gosto ao tecer os fios da vida. Para ninguém Ele deixou fácil de desenrolar o novelo.

E sabe o que eu acho mais fantástico nisso tudo? Mesmo no silêncio, mesmo sem resposta, no frio ou no calor excessivo, sozinhos, a gente dá um jeito.

Arranjamos uma saída para a angústia. A humanidade é tão divina que cria. Cria relações, cria músicas, cria poesias, cria romances, cria arte. Cria dilemas só para ocupar a mente. Afinal, mente ocupada não dá espaço para o caos montar oficina.

E então nasce algo parecido com esperança. Uma força estranha que nos faz escrever, conversar, rir, pintar, ajeitar o cabelo, enxugar as lágrimas, ligar para um amigo, inventar um novo jeito de amar, adotar um animal.

Às vezes, a quebra do silêncio divino não vem como resposta do céu, mas como uma voz e uma mão sagrada: a sua. Vá lá e faça. Viva.

Jesus atravessou a crucificação e ressuscitou.

E você? Vai ficar aí resmungando ou fará algo a respeito?

Divirta-se.

Edição n.º 1500.