A história do jovem Roberto Farias Thomaz, de 20 anos, chamou a atenção do país inteiro nesta semana. Após aceitar o convite de uma amiga para fazer uma trilha no Pico Paraná durante o Ano Novo, Roberto acabou se perdendo e desapareceu por cinco dias. Felizmente, na segunda-feira (05), o jovem foi encontrado com vida em uma chácara em Antonina, após andar por mais de 20km.

O motivo do desaparecimento gerou controvérsias na internet. Comentários de vários internautas afirmaram que a principal razão seria a negligência por parte da amiga, que por um tempo acabou deixando Roberto sozinho na trilha.

As trilheiras Jaqueline e Patrícia, do grupo Viva Trilhas, deixam algumas orientações sobre como agir em trilhas. As amigas criaram o grupo em 2017, para trilheiros amadores. Elas ressaltam que, em grandes desafios, o grupo sempre está acompanhado de guias experientes.

“Os riscos variam entre ambientais e físicos. O maior perigo técnico é a hipotermia, que pode ocorrer mesmo em climas tropicais se o trilheiro estiver molhado e exposto ao vento. O preparo tem foco em resistência física e psicológica. É importante observar o grau de dificuldade da trilha. Saber onde irá trilhar é fundamental com uso de GPS, além de aplicativos de trilhas”, ressaltam as amigas.

De acordo com Patrícia, existem algumas pessoas que não são aptas a realizar esse tipo de atividade, como pessoas com condições médicas instáveis, sem liberação médica, ou quem possui limitações de mobilidade sem o suporte de equipamentos adaptados.

Ela descreve que a maior restrição para isso é a falta de preparo físico e mental, que pode ser negligenciado pelas pessoas, já que muitos não respeitam o limite do próprio corpo. “Às vezes as pessoas são sedentárias e acham que conseguem desafiar montanhas com alto grau de dificuldade, isso é muito perigoso. Geralmente quando organizamos uma expedição, já indicamos o grau de dificuldade e restringimos quem acreditamos que não está apto para aquela montanha. Minha formação em educação física me permite fazer essa avaliação”.

Jaqueline enfatiza que praticar a atividade em grupo é muito importante, onde, em caso de acidente, existe a possibilidade das pessoas se dividirem para buscar ajudar e prestar socorro, e também na eficiência no gerenciamento de risco. Porém, ela salienta que trilhas com grupos muito grandes não é recomendado, justamente pelo risco de um não acompanhar o outro e pelo espaço da trilha que é estreito.

Ela reforça que se preparar com antecedência é fundamental, como planejar o roteiro e avisar alguém de confiança sobre o destino e horário de retorno. A trilheira também aconselha os iniciantes a não subestimarem o tempo de deslocamento e o trajeto que pretender percorrer. “Respeite seu corpo e seu condicionamento físico. Se é iniciante e não costuma praticar atividade física, inicie pelas trilhas mais leves. Se já tem uma condição física melhor, leia a montanha, leve os equipamentos necessários, procure grupos responsáveis e experientes, que não se arriscam e não te deixam para trás”.

Como erros mais comuns cometidos, Patrícia cita o uso de calçados novos como exemplo, já que podem causar bolhas. Ela também destaca o erro de ignorar a previsão do tempo; sair da trilha demarcada, achando que pode conseguir atalho; se arriscar para fazer uma foto ou vídeo; e subestimar a quantidade de água e comida necessária. Por último, ela cita o perigo do uso de bebida alcoólica durante a trilha, dando um exemplo de várias situações onde já encontrou grupos de pessoas embriagadas se colocando em risco.

Existem alguns equipamentos básicos que os trilheiros precisam levar para uma aventura. As amigas apelidarem esses itens de ‘Os 10 Essenciais’, sendo: navegação (mapa/aplicativo de guia/GPS); lanterna com pilhas extras; proteção solar e contra insetos; primeiros socorros básicos; canivete ou ferramenta multifunção; fogo (isqueiro); abrigo de emergência (manta térmica); nutrição extra; hidratação extra; vestuário isolante.

Elas também reforçam que a equipe de resgate deve ser acionada quando há suspeita de fraturas, ferimentos graves com hemorragia, ataque de animais ou perda total de orientação. Jaqueline comenta que, em todos esses anos, o grupo solicitou apoio do Corpo de Bombeiros apenas uma única vez, no Pica Araçatuba, quando parte do pessoal se perdeu.

“O resgate foi feito pelo helicóptero da polícia. Naquela situação estávamos em um grupo muito grande, inclusive com criança. Foi um fator fundamental para restringir a participação o grupo. Agora estamos mais cuidadosas com o número de pessoas que vão para a montanha com a gente para não acontecer mais isso, pois quando acontece, é desesperador. Foi uma lição para nós”, relembra a trilheira.

Por último, Patrícia faz uma orientação para as pessoas, de como devem agir enquanto esperam o resgate. Segundo ela, é importante se manter seco e aquecido, já que a prioridade é evitar a perda de calor corporal para o solo, lembrando que a pessoa deve usar a mochila para se sentar.

“É essencial manter o grupo unido, usar sinais visuais como cores vibrantes ou espelhos, além de sinais sonoros como apitos. Acima de tudo, o grupo deve ficar parado. Quem se movimenta tentando “se achar” dificulta o trabalho das equipes de busca. No nosso caso, o grupo ficou parado, conseguimos contato imediatamente via celular, o que foi fundamental para a agilidade do resgate”, finaliza.

Edição n.º 1497. Victória Malinowski.